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sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Pelos olhos do menino

Os pequenos, desde pequenos, são alucinados por velhinhos. São do tipo que dão abraços gratuitos e se oferecem para carregar sacolas nas ruas. Acho que rola uma certa identificação entre eles, o que me dá muitíssimo gosto.

Outro dia, no carro, enquanto eu estava perdida em pensamentos escaldantes de gente grande, João apontou para um casal de velhinhos que esperava a sua vez de atravessar a rua:

- Olha, mãe, que bonitinho aqueles dois velhinhos de mão dadinha...

Sorri e concordei, eram muito bonitinhos mesmo. Perguntei o que mais ele tinha achado bonitinho na cena, além das "mãos dadinhas".

- O casaquinho e o cabelinho de algodão dela. E o tênis dele, está parecendo um rapazinho.

Ele é tão humano que chega a ser divino.


terça-feira, 19 de novembro de 2019

Faminto

Enquanto eu levava um irmão ao hospital para descobrir do que se tratavam as tais dores misteriosas, o irmão-igual foi ficando na casa da professora particular e acabou almoçando por lá.

Faminto como sempre, voltou para a casa satisfeito:

- Mãe, comi a melhor comida da minha vida.
- Que bom, filho. O que tinha de especial?

Como se estivesse diante do maior banquete de todos os tempos, começou a enumerar:

- Folhas. Amendoim. Frutas. Batata doce. E um feijão desconhecido. Como é que chama mesmo?
- Não sei, eu não estava lá.
- Len..., lena... ah, lentilha.


sábado, 16 de novembro de 2019

Malandro

- Pedro, já estudou para as provas dessa semana?
- Hã?
- Hã, nada, você entendeu muito bem.
- Pergunta de novo para eu ter tempo de pensar na resposta.



terça-feira, 12 de novembro de 2019

Segunda chance

- João, por favor, pegue um pano na cozinha para mim?
- Tou...
- Hã?
- Outra chance, vamos lá: Tou...
- Ah, Toucinho...
- Agora sim.


terça-feira, 5 de novembro de 2019

Engraçadinho

O baixinho-grande entrou na fase de não perder a piada. Propus:

- Vamos todos almoçar como a família feliz que somos?
- Só falta a felicidade.

E caiu na gargalhada, feliz da vida.


Codinome

Ainda em crise com o nome, o pequeno me veio com mais essa:

- Mãe, me chama de um apelido carinhoso?
- Tipo qual, João?
- Pode ser toucinho.
- Toucinho?
- Sim. E quando você estiver brava, pode me chamar de touço mesmo.


Vai entender...

"Queria ter um nome mais básico", queixou-se o menino chamado João.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Filosofando

O baixinho-grande estava almoçando com aquela boca que faz a fome da gente até aumentar. Entre uma garfada e hoje, ele filosofou:

- Bobagem isso de achar comida ruim. Não existe comida ruim.
- Como assim, Pedro?
- Existe comida que determinadas pessoas não gostam. Mas nem por isso ela é ruim.
- Faz sentido, filho.
- E se você não gosta, tem sempre uma chance de passar a gostar. Porque a gente muda de opinião tantas vezes, por que não mudar com comida também?

Alguém me empresta um pouco de maturidade para lidar com esse menino, por favor?

terça-feira, 25 de abril de 2017

O super sincero

João andou fazendo terapia devido a uma agressividade mal canalizada. Expliquei que aquelas sessões eram para ajudá-lo a trabalhar melhor com o sentimento de raiva. Ele, resignado, entregou-se ao tratamento e conquistou avanços que lhe garantiram a alta em alguns meses.

Ontem, para a minha surpresa, ele veio pedir:

- Mãe, eu quero voltar pro psicólogo.
- Por que, meu filho?
- Tem umas horas que eu tenho muita vontade de bater nas pessoas.


Quem nunca?


sexta-feira, 7 de abril de 2017

Dramático



Davi veio mostrar um corte no dedo feito pelas folhas fininhas do livro de ciências.

- Mãe, esse livro é muito do mal! Ele corta a gente e faz o espírito do dedo sair.


quarta-feira, 29 de março de 2017

domingo, 16 de outubro de 2016

Diferenças

Os dois tomavam banho juntos. Ao final, cada um recebeu uma muda de roupa para vestir. Incomodado com as peças que lhe foram dadas, Davi protestou:

- Não quero essa. Não gosto de blusa com o sovaquinho de fora.

João prontamente se apresentou:

- Então me dá. Adoro blusa com o sovaquinho de fora.

Trocaram as roupas e desfilaram felizes, cada qual com o seu sovaquinho.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Nocaute

Pedro tinha jogo depois da aula e se esqueceu de que precisava estar com meião branco. Ele olhou para os irmãos e viu que o Davi, dono do chulé mais poderoso da face da Terra, estava usando uma desde cedo, que tinha sido branca um dia. Necessitado, ele ignorou todo o chorume e rapidamente trocou de meia com o seu cúmplice.

Venceu o jogo.
Por nocaute, imagino.


terça-feira, 27 de setembro de 2016

Réu confesso



- Mãe, eu tenho tido uns pensamentos muito ruins sobre umas coisas que andei fazendo.
- Isso se chama consciência pesada, João.

O menino arrependido abaixou a cabecinha e confessou:

- Eu tenho essa consciência todo dia.


Dramático

João voltou da escola bem cabisbaixo. Perguntei o motivo e ele começou o desabafo:

- Esqueci aquele para casa que era uma pesquisa, lembra?
- Nossa, é mesmo! Estava na sua agenda, na semana passada. E aí?
- A professora brigou comigo, uai.
- Quer que eu escreva um bilhete explicando que eu também esqueci?
- Ela falou que nem adianta, porque quem tinha que lembrar era eu (ui!).
- Ela está certa. Uma pena, filho. Vamos ficar mais atentos da próxima vez, né?

Ele, dramático, sentenciou:

- Nem vai ter próxima vez. Eu vou tomar bomba por causa disso, eu sei.


quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Ser diferente é normal

Vejo os baixinhos assistindo as paralimpíadas e pergunto:

- O que vocês estão vendo aí?
- Basquete de cadeira de rodas - responde o Pedro
- E como é?
- Normal, ué.

Excelente resposta, filhinho.