terça-feira, 17 de novembro de 2015

Confissão



Pareço boa mãe, mas deixo o Vivi apontar para um jipe na rua e chamá-lo de libusine só porque acho bonitinho.

Espero que ele me perdoe um dia.


segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Contra o feiticeiro

Tenho andado bem cansada do fusuê da tropinha. Principalmente à noite, quando eles deviam estar calmos e prontos para o sono, mas são tomados por um fogo que começa do nada, rapidamente se alastra e termina em choro ou machucado. Numa noite dessas, adverti que a fusarca ia terminar mal:

- Alguém ainda vai se machucar e eu não vou querer nem saber, porque estou pedindo para parar e ninguém me obedece.

Bingo. Não demorou muito para que o primeiro desse uma topada na parede e, chorando, viesse pedir colo. Impiedosa, cumpri minha promessa:

- Não adianta nem vir me contar, pode ir direto pra cama.

Resignado, o baixinho ferido se deitou e dormiu, soluçando de tanto chorar. Acordou com o dedo da mão roxo e inchado, só para me matar de culpa. Ele, vingativo, ainda tripudiou:

- Você não quis ver, agora meu dedo nem dobra mais.

Se praga de mãe tem poder, condenação de filho tem mais ainda. E, vá por mim, dói muito mais.


terça-feira, 10 de novembro de 2015

Impaciência



- Mãe, a gente quer maçã.
- Daqui a pouco, Davi.
- Daqui a pouco?
- Sim.
- Mas a gente já está esperando há mais de um minuto!


segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Conselho de irmão

Diálogo no carro:

- Pedro, você vai morrer primeiro que a gente. 
- Não necessariamente, João. 
- Vai sim, você é o mais velho. 
- A morte nem sempre tem a ver com a idade. 
- Não?
- Claro que não. Se fosse assim, nenhuma criança morreria. 

E, no alto da sua maturidade de oito anos, aconselhou:

- Por isso é que temos que aproveitar a vida. Nunca sabemos quando a nossa hora vai chegar. 


Aguado



Mais uma do Vivi, o menino faminto:

- Mãe, tô com fome.
- Davi, ninguém sente fome depois do jantar.
- Como você sabe? Você não manda na água da minha boca.


terça-feira, 3 de novembro de 2015

Ponto de vista


João foi o único que concordou de pronto com a rescisão do contrato. Depois de ouvir o discurso sobre o fim da discriminação, ele emendou, em tom de protesto:

- Aquele clube é chato mesmo. Tem muita abelha.

Tudo porque, certo dia, foi picado por uma na saída da piscina.
Cada um com seus motivos, hahaha...

Briga do bem

Reuni a tropinha e expliquei o motivo pelo qual eles não continuarão a fazer natação no Olympico.

Reafirmei que dignidade é um bem precioso, pelo qual todos devem zelar. E que nunca, jamais, em tempo algum, podemos permitir que separem as pessoas por raça, classe econômica, orientação sexual ou qualquer coisa que o valha. Pedro teve dificuldade de entender a que segregação eu me referia:

- Qual o problema do jaleco, mãe? Eu uso na aula de ciências.

Você ainda vai entender, querido, mas o jaleco, nesse caso, é muito mais que uma roupa. É um símbolo de luta.
E essa é uma luta que vai sempre valer a pena.